quinta-feira, 23 de maio de 2019

Miguel Torga


Um poema
Não tenhas medo, ouve:
É um poema.
Um misto de oração e de feitiço…
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar,
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz…

Miguel Torga
In ‘Diário XIII’


Anavitória

segunda-feira, 6 de maio de 2019

José Jorge Letria

QUANDO EU FOR PEQUENO 
.
Quando eu for pequeno, mãe,
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a certeza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono.
.
Quando eu for pequeno, mãe,
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.
.
Quando eu for pequeno, mãe,
nenhum de nós falará da morte,
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar.
.
Quando eu for pequeno, mãe,
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros,
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena,
lenço branco na mão com as iniciais bordadas,
anunciando que vai voltar porque eu sou
[pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.


Ilustração, por ©Cécile Veilhan


sábado, 4 de maio de 2019

João José Cochofel


Breve,
o botão que foste
e o pudor de sê-lo.

Breve,
o laço vermelho
dado no cabelo.

Breve,
a flor que abriu
- e o sol mudou.

Breve,
tanto sonho findo
que a vida pisou.

João José Cochofel.



sábado, 23 de março de 2019

Alberto Caeiro


Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro



quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Tenho

tenho
uma saudade imensa
não sei de quê

olho o céu muito azul
neste dia de inverno
um pouco frio
e sinto saudade

não tenho paciência
para cartas formais
contas bancárias
tratar de ficheiros
ordenar papéis
negociar

quero criar
imaginar
escrever e desenhar
mas o quê?

tenho
uma saudade imensa
de criação

Alf. Jan. / 2015


quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

A função do coração


Paula Amaro


DO QUE EU GOSTO
Gosto de flores e pessoas verdadeiras.
Gosto do ar puro, da sede dos teus lábios,
da água que em bátegas inteiras
cai, em flocos de neve, brancos, pálidos.
Gosto do sabor acre das ameixas verdes,
do mel de rosmaninho, filtrado da colmeia; 
das ilhas de musgo que cobrem as paredes, 
do uivar do lobo quando há lua cheia
Gosto do jasmim plantado no canteiro 
por baixo da janela do meu quarto, 
do sibilar do vento na palha de centeio 
e daquela réstea de luz que vem do alto,
que brilha nos teus olhos cor do céu,
que traz de novo meu peito apertadinho 
e até a névoa que cobre a lua como um véu
deixando livre o amor no meu caminho...
Gosto de flores e pessoas verdadeiras.
E não encontro as pessoas...
PAULA AMARO (a publicar)




Anabela Borges

OURO ENVELHECIDO
Porque estás sentada nos braços da solidão,
e as tuas horas são feitas de silêncios, 
e querias ter a casa preenchida
de vidas que foram tão tuas,
e das tarefas infindas
que te enchiam os dias. 
Querias. 
Porque querias percorrer as ruas 
com o ânimo renovado 
no regresso a casa. 
E querias que as presenças 
que não te esperam mais 
te curassem as feridas, 
as fendas que se abriram em ti,
como as que o tempo abre na terra.
Dizem que tens a idade maior,
que é feita de ouro.
Será. Mas é de um ouro envelhecido,
como o ouro das arrecadas,
que guardas apertadas nas mãos,
sinal da tua passagem, outrora,
passado apagado pelo vento que passa,
de mão em mão.
E já nada brilha como o ouro novo, agora.
Querias.
Mas como pode parecer tão simples
o que querias?
Pássaros que era costume esperarem-te
de bicos abertos no ninho?
Memórias. São memórias,
uma seita de memórias embrulhadas em bruma
e com um cheiro escarninho, acre e doce do que foste feita.
Não consegues lembrar-te do dia
em que a casa ficou vazia,
e tudo se degradou, até quase se desmoronar,
porque todos os pássaros foram voando
para longe de ti, até deixarem de regressar.
E tu ficaste, ouro envelhecido,
empoeirado de branco como os teus cabelos,
dependurada de ti, nesse silêncio enevoado,
com uma pergunta nos olhos
e um fio de lágrima que desce lento,
como a água de um ribeiro
que seja estreito de leito.
Ficas, nessa delonga,
dependurada por um fio,
para seres apenas sombra.
ANABELA BORGES, in ENTRE O SONO E O SONHO-Vol. IV- (Chiado Editora, 2013)