sexta-feira, 18 de março de 2016

Olhar

"Não me olhes
como quem nada vê
além dos próprios olhos
olha-me
como se não quisesses
ver nada além de mim
ou como se já tivesses visto tudo
menos o meu olhar".
Maria José Meireles

Em: "Poemas para quem não gosta"


terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Fundo do Mar

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.
Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho,
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.
Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.
Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)


sábado, 23 de janeiro de 2016

Regresso


Quando eu voltar,
que se alongue sobre o mar,
o meu canto ao Creador!
Porque me deu, vida e amor,
para voltar…

Voltar…
Ver de novo baloiçar
a fronde majestosa das palmeiras
que as derradeiras horas do dia,
circundam de magia…
Regressar…
Poder de novo respirar,
Oh!.. minha terra!
aquele odor escaldante
que o húmus vivificante
do teu solo encerra!
Embriagar
uma vez mais o olhar,
numa alegria selvagem,
com o tom da tua paisagem,
que o sol,
a dardejar calor,
transforma num inferno de cor…
Não mais o pregão das varinas,
Nem o ar monótono, igual,
Do casario plano…
Hei-de ver outra vez as casuarinas
a debruar o oceano…
Não mais o agitar fremente
de uma cidade em convulsão…
não mais esta visão,
nem o crepitar mordente
destes ruídos…
os meus sentidos
anseiam pela paz das noites tropicais
em que o ar parece mudo,
e o silêncio envolve tudo
Sede… Tenho sede dos crepúsculos africanos,
todos os dias iguais, e sempre belos,
de tons quasi irreais…
Saudade… Tenho saudade
do horizonte sem barreiras…
das calemas traiçoeiras,
das cheias alucinadas…
Saudade das batucadas
que eu nunca via
mas pressentia
em cada hora,
soando pelos longes, noites fora!...

Sim! Eu hei-de voltar,
tenho de voltar,
não há nada que mo impeça.
Com que prazer
Hei-de esquecer
toda esta luta insana…
que em frente está a terra angolana,
a prometer o mundo
a quem regressa…

Ah! Quando eu voltar…
Hão-de as acácias rubras,
a sangrar
numa verbena sem fim,
florir só para mim!..
E o sol esplendoroso e quente,
o sol ardente,
há-de gritar na apoteose do poente,
o meu prazer sem lei…
A minha alegria enorme de poder
Enfim dizer:
Voltei! …
(Alda Lara, 1948)   


quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Pensamento

QUANDO OS SÓCRATES FOREM APENAS FILÓSOFOS; 
OS ALEGRES APENAS CRIANÇAS; 
OS CAVACOS APENAS INSTRUMENTOS MUSICAIS; 
OS PASSOS APENAS OS DE DANÇA; 
OS LOUÇÃS APENAS ERROS ORTOGRÁFICOS; 
OS JERÓNIMOS APENAS MONUMENTOS NACIONAIS; 
OS JARDINS LOCAIS DE LAZER 
E PORTAS SÓ DE ABRIR E FECHAR...

... VOLTAREMOS A SER FELIZEs!

domingo, 20 de dezembro de 2015

Natal

Enquanto a chuva 
Escorrer na minha vidraça 
E furar o telhado 
Daquele farrapo de homem 
que além passa, 
Enquanto o pão 
Não entrar com a justiça
Lado a lado 
Mão a mão, 
Nem Jesus vem 
Andar pelos caminhos onde 
os outros vão.

Um dia 
Quando for Natal 
(E já não for Dezembro),
E o mundo for o espaço 
Onde cabe 
Um só abraço 
Então, 
Jesus virá 
E será 
À flor de tudo 
O Redentor Universal.

Quando o Homem quiser, será Natal! 

 Manuel Sérgio


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Foi nessa idade que a poesia me veio buscar
Não sei de onde veio
Do inverno, de um rio
Não sei como nem quando
Não, não eram vozes
Não eram palavras
Nem silêncio
Mas da rua fui convocado
Dos galhos da noite
Abruptamente entre outros
Entre fogos violentos
Voltando sozinho
Lá estava eu sem rosto
E fui tocado.

Pablo Neruda


sábado, 15 de agosto de 2015

CECÍLIA MEIRELES, in ANTOLOGIA POÉTICA (1963; Nova Fronteira, Brasil, 2001; Relógio D'Água, 2002)

RETRATO
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?
*
Óleo sobre tela: Reflection, de Wendy Delgado
*
(CC)


terça-feira, 2 de junho de 2015


Quarenta anos a namorar


Minha linda namorada
Dos anos que já lá vão
Foste sempre a minha amada
A dona do meu coração
Minha linda namorada
teus dotes que belos são
Só quero de ti minha amada
A ternura do teu coração

Há trinta e cinco anos era assim
E assim continuará a ser
Quero que sejas para mim
O bálsamo do meu sofrer
Contigo aprendi a amar
E também aprendi a sofrer
Hei-de sempre recordar
O nosso amor até morrer

Nesse tempo tudo te dava
Vê lá o que me lembrou
Do muito que então sobrava
Agora nada te dou
Agora nada te dou
Sei bem que não te ofendes
Eu sou aquele que te amou
Tu bem me compreendes

No dia dos namorados
Com amor esta rosa te dou
Que lindos sonhos dourados
O teu namorado contigo sonhou
Ainda somos namorados
Acho bem que assim seja
Na verdade somos casados
Pelo civil e pela igreja.


Alcino Augusto de Seixas