Percorro vezes sem conta Este meu chão, Este chão aos quadrados, Cheio de passos e passinhos De quem já foi... Não!, Que ainda são, os meus passos meninos.
Percorro as divisões vestidas de silêncios e de
saudade, Abro e fecho portas à procura das gargalhadas
soltas Nos dias em que eramos todos criança.
Não foram tantas vezes assim, O trabalho chamava por mim.
Por isso, talvez, esta procura constante dos sorrisos Que mais pareciam campainhas no meu olhar... E olho as minhas mãos tão solitárias de afagos E os meus braços tão vazios...!
Que os meus olhos se encham de lágrimas, Caindo nos quadrados com passinhos ainda guardados De quem me é amor, ainda que em silêncio Encrostado nas divisões de cor.
Onde os meus anjos irrequietos Encostaram as suas asas, deixando a energia Com que tento contrariar a ociosidade do meu abraço E dar rumo às histórias que este chão me lembra, Extinguir esta dor lume E as sombras das paredes em queixume, Testemunhas das saudades que aqui moram. LUANA LUA, in VOO ENTRE FACES (Versbrava, Porto, 2016)
Era noite e eu caminhava Pela
areia e imaginava Memórias da vida no céu, E pegadas à beira da água Que eu contava, admirado. Seriam passos do passado, Ou Deus que caminhava ao meu lado?
Era noite e eu recordava Os dias de sofrimento e mágoa Em que não encontrei companhia E a areia só mostrava O rasto da minha melancolia. Não via as pegadas de Deus, Os passos que via eram só meus.
Tinhas-me prometido Que se tomasse este caminho Caminharias a meu lado Mas quando a dor foi maior E olhei em redor Mais solitário me senti E tão solitárias as pegadas que vi.
Prefiro acreditar Que nos dias de sofrimento e mágoa Desenhados junto à água Esses solitários passos Afinal não eram meus Eram as pegadas de Deus Que me carregava nos seus braços.
CARLOS CAMPOS (a partir de uma nota de Quinta-feira, 14 de Abril de 2011 às 21:47)
O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os
livros.
As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as
palavras são pequenos lugares de memória. Estou divorciada
dos outros pelo tempo destas entrelinhas - longe de
casa, tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar
a primeira página: em
fevereiro ainda faziam amor
à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia
laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar
ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,
antes de se despedirem. Às vezes, repartiam sofregamente
a infância, postais antigos, o silêncio - nada
aconteceu entretanto. Regresso,
pois, à primeira linha,
à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos
estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias
se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe
de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.
MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, in A CASA E O CHEIRO DOS LIVROS (Quetzal, 1996)
Aproveita o dia, Não deixes que termine sem teres crescido
um pouco. Sem teres sido feliz, sem teres alimentado teus sonhos. Não te deixes
vencer pelo desalento. Não permitas que alguém te negue o direito de
expressar-te, que é quase um dever. Não abandones tua ânsia de fazer de tua
vida algo extraordinário. Não deixes de crer que as palavras e as poesias sim
podem mudar o mundo. Porque passe o que passar, nossa essência continuará
intacta. Somos seres humanos cheios de paixão. A vida é deserto e oásis. Nos
derruba, nos lastima, nos ensina, nos converte em protagonistas de nossa
própria história. Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua, tu
podes trocar uma estrofe. Não deixes nunca de sonhar, porque só nos sonhos pode
ser livre o homem. Não caias no pior dos erros: o silêncio. A maioria vive num
silêncio espantoso. Não te resignes, e nem fujas. Valorize a beleza das coisas
simples, se pode fazer poesia bela, sobre as pequenas coisas. Não atraiçoes
tuas crenças. Todos necessitamos de aceitação, mas não podemos remar contra nós
mesmos. Isso transforma a vida em um inferno. Desfruta o pânico que provoca ter
a vida toda a diante. Procures vivê-la intensamente sem mediocridades. Pensa
que em ti está o futuro, e encara a tarefa com orgulho e sem medo. Aprendes com
quem pode ensinar-te as experiências daqueles que nos precederam. Não permitas
que a vida se passe sem teres vivido…
Walter Whitman (1819 – 1892) foi um jornalista, ensaísta e
poeta americano considerado o “pai do verso livre” e o grande poeta da
revolução americana.
Quando eu for pequeno, mãe, quero ouvir de novo a tua voz na campânula de som dos meus dias inquietos, apressados, fustigados pelo medo. Subirás comigo as ruas íngremes com a certeza dócil de que só o empedrado e o cansaço da subida me entregarão ao sossego do sono.
Quando eu for pequeno, mãe, os teus olhos voltarão a ver nem que seja o fio do destino desenhado por uma estrela cadente no cetim azul das tardes sobre a baía dos veleiros imaginados.
Quando eu for pequeno, mãe, nenhum de nós falará da morte, a não ser para confirmarmos que ela só vem quando a chamamos e que os animais fazem um círculo para sabermos de antemão que vai chegar.
Quando eu for pequeno, mãe, trarei as papoilas e os búzios para a tua mesa de tricotar encontros, e então ficaremos debaixo de um alpendre a ouvir uma banda a tocar enquanto o pai ao longe nos acena, lenço branco na mão com as iniciais bordadas, anunciando que vai voltar porque eu sou [pequeno e a orfandade até nos olhos deixa marcas. JOSÉ JORGE LETRIA, in O LIVRO BRANCO DA MELANCOLIA (Quetzal, 2001)
Na terra de meu pai corria um
rio e não era ainda o do tempo nem eu nadara no múltiplo leito de Heraclito, era um rio de claros seixos, onde a sombra e o riso acolhiam o nosso corpo ainda intacto no incêndio da manhã. . Na terra do meu pai havia laranjas e chão, havia sol e murmúrios e nós ouvíamos a respiração da noite por dentro das raízes das árvores e o rio falava com as pedras e com a luz e nó corríamos ou éramos levados pelo vento que acendia a folhagem. . Na terra do meu pai não havia medo só um rio e as águas limpas onde as mulheres lavavam a roupa e cantavam ao som da terra. . Na terra do meu pai corria um rio e os homens tinham lugar era um rio por coração era um nome para um homem.
em que a minha porta
permanecerá fechada
em que não atenderei o telefone
em que não perguntarei
se querem comer alguma coisa
em que não recomendarei
que levem os casacos
porque a noite se adivinha fresca.
Só nos meus versos poderão encontrar
a minha promessa de amor eterno.
Não chorem; eu não morri
apenas me embriaguei
de luz e de silêncio.
«No tempo em que
festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que
festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que
fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino.
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou
hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa.
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em
que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo
outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do
alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu
coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em
que festejavam o dia dos meus anos!...»
Os Meus Sonhos São Mais Belos que a Conversa Alheia
Não faço visitas, nem ando em sociedade alguma - nem de salas, nem de
cafés. Fazê-lo seria sacrificar a minha unidade interior, entregar-me a
conversas inúteis, furtar tempo senão aos meus raciocínios e aos meus projectos,
pelo menos aos meus sonhos, que sempre são mais belos que a conversa
alheia.
Devo-me a humanidade futura. Quanto me desperdiçar, desperdiço do divino
património possível dos homens de amanhã; diminuo-lhes a felicidade que lhes
posso dar e diminuo-me a mim-próprio, não só aos meus olhos reais, mas aos
olhos possíveis de Deus.
Isto pode não ser assim, mas sinto que é meu dever crê-lo.
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?
Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.
Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.
Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!
Quando
propus a teoria da relatividade, muito poucos me entenderam, e o que lhe revelarei
agora para que o transmita à humanidade, também se chocará contra a
incompreensão e os preconceitos do mundo.
Peço-lhe
mesmo assim, que o guarde o tempo todo que seja necessário, anos, décadas, até
que a sociedade haja avançado o suficiente para acolher o que lhe explico a
seguir.
Existe
uma força extremamente poderosa para a qual a ciência não encontrou ainda uma
explicação formal.
É
uma força que inclui e governa todas as outras, e que está inclusa dentro de
qualquer fenômeno que atua no universo e que ainda não foi identificada por
nós.
Esta
força universal é o Amor.
Quando
os cientistas buscam uma teoria unificada do universo, esquecem da mais
invisível e poderosa das forças.
O
amor é luz, já que ilumina quem o dá e o recebe.
O
amor é gravidade porque faz com que umas pessoas sejam atraídas por outras.
O
amor é potencia, porque multiplica o melhor que temos e permite que a
humanidade não se extinga no seu egoísmo cego.
O
amor revela e desvela. Por amor se vive e se morre.
Esta
força explica tudo e dá sentido em maiúscula à vida.
Esta
é a variável que temos evitado durante tempo demais, talvez porque o amor nos
dá medo, já que é a única energia do universo que o ser humano não aprendeu a
manobrar segundo seu bel prazer.
Para
dar visibilidade ao amor, fiz uma simples substituição na minha mais célebre
equação. Si no lugar de E=mc² aceitamos que a energia necessária para sanar o
mundo pode ser obtida através do amor multiplicado pela velocidade da luz ao
quadrado, chegaremos à conclusão de que o amor é a força mais poderosa que
existe, porque não tem limite.
Após
o fracasso da humanidade no uso e controle das outras forças do universo que se
voltaram contra nós, é urgente que nos alimentemos de outro tipo de energia.
Se
quisermos que nossa espécie sobreviva, se nos propusermos encontrar um sentido
à vida, se desejarmos salvar o mundo e que cada ser sinta que nele habita, o
amor é a única e última resposta.
Talvez
ainda não estejamos preparados para fabricar uma bomba de amor, um artefato
bastante potente para destruir todo o ódio, o egoísmo e a avareza que assolam o
planeta.
Porém,
cada individuo leva no seu Interior , um pequeno mas poderoso gerador de amor
cuja energia espera ser liberada.
Quando
aprendermos a dar e receber esta energia universal, querida Lieserl,
comprovaremos que o amor tudo vence, tudo transcende e tudo pode, porque o amor
é a quintessência da vida.
Lamento
profundamente não ter sabido expressar o que abriga meu coração, que há batido
silenciosamente por você toda minha vida.
Talvez
seja tarde demais para pedir-lhe perdão, mas como o tempo é relativo, preciso
dizer-lhe que a amo e que graças a você, cheguei à ultima resposta.
O órgão do mar está localizado na
cidade de Zadar, na Croácia e é o primeiro instrumento deste tipo que é
“tocado” pelo mar.
É um instrumento musical natural,
que com o movimento do mar, cria sons muito bonitos, dependendo da velocidade
das ondas e do vento e nunca pára, está sempre a emitir algum tipo de som.
As ondas batem nas escadas onde
estão os retângulos e o som sai por buracos.